sábado, 31 de dezembro de 2011


CAILLEACH



""Cailleach é a Anciã ancestral da Escócia,também conhecida como a Carline ou Mag-Moullach,representado o aspecto de velha da Deusa no ciclo anual. Esta ligada às trevas e ao frio do inverno e assumiu a direção no ciclo das estações em Samhaim,a véspera de primeiro de novembro. Ela portava um bastão negro do inverno e castigava a terra com frias forças contrativas que ressecavam a vegetação. Com a aproximação do fim do inverno,ela passava o bastão do poder para Brigid,em cujas mãos ele se tornava branco que estimulava a germinação das sementes plantadas na terra negra. As forças expansivas da natureza começavam então a se manifestar.
Por vezes,essas duas deusas eram retratadas em batalha pelo controle da natureza:dizia-se até que Cailleach aprisionava Brigid sob as montanhas no inverno. Mas o melhor modo de vê-las é como duas facetas de uma deusa tríplice das estações:a Velha Cailleach do Inverno,a Donzela Brigid da Primavera e a Deusa-Mãe do viço do Verão e da frutificação do Outono. O nome do último membro dessa trindade não foi preservado na lenda folclórica com o mesmo cuidado. Talvez porque ela representava uma faceta demasiado pagã da Deusa,vinculada demais com a fecundidade e com as forças sexuais da vida. Em um certo sentido,a figura Cailleach-Brigid,pode ser considerada como tendo um paralelo com o mito Deméter-Perséfone dos gregos antigos.
A imagem de Cailleach foi distorçida e hoje ela está representada no vôo da bruxa que aparece na noite de Halloween. Foi caracterizada como uma fada do mal que traz conisgo o inverno e a morte. Apesar de ser perpetuada deste modo terrível,sabemos que neste aspecto de Deusa Anciã,ela está inteiramente realizada em sabedoria e beleza.
Cailleach era tida como uma grande feiticeira e para obter suas bençãos os fazendeiros após as colheitas deviam reverenciá-la. Para tanto,o primeiro fazendeiro que terminasse sua colheita,deveria se ocupar na feitura de uma boneca de palha com os últimos grãos colhidos. A boneca pronta,deveria passar para o segundo granjeiro e assim por diante,até chegar no último. Esse,deveria guardá-la até o dia da celebração do festival de Brigid.
Na Escócia foi chamada originalmente de Caledonia ou a “terra doada por Cailleach”. Para os escoceses,Cailleach era aquela que cujo bastão negro,separava as montanhas,mudava a paisagem,previa o crescimento das ervas e comandava o tempo. Seu nome aqui,pode estar relacionado com a deusa hindu Kali.
Ficou conhecida também,como “Mulher de Pedra”,porque era vista andando e carregando uma cesta cheia de pedras. Ocasionalmente deixava cair algumas,formando círculos de pedras. As montanhas também teriam sido criadas por pedras que a Deusa deixou cair da cesta. Cailleach representava a terra coberta de neve e geada. Era uma Deusa da Transformação e guardiã da semente,que conserva dentro de si a força essencial da vida.
Era a Bruxa do Inverno que voava montada no dorso de um lobo,de um pico de montanha à outro. Seu rosto apresentava uma coloração azul escuro e possuía apenas um olho no centro da testa.Com este único olho,via além da dualidade e reconhecia a unidade de todas as coisas. Esboçava ainda,um sorriso vermelho de dentes de urso selvagem com presas de javali e seu cabelo era feito de um matagal coberto de geada. Vestia uma roupa de cor cinza e uma capa de lã escocesa lhe envolvia os ombros. Quando violentas tempestades se formavam por trás das montanhas,dizia-se que Cailleach preparava-se para lavar sua capa (plaid). Fortes ruídos eram ouvidos por três dias,tempo necessário para que seu caldeirão fervesse e pudesse iniciar a tal lavagem. Sua capa (plaid) representava a Terra. Quando ela ficava branca,a Terra cobria-se de neve. Somente em Samhaim,Cailleach deixava as montanhas e caminhava sobre a Terra. Em seguida,voltava aos afazeres em sua lavanderia.
É um pouco duro trabalhar com a energia de Cailleach,principalmente por sua aparência causar um certo medo. Nas meditações Ela aparece físicamente como descrevi acima. Mas seu poder é muito grande e costuma punir nosso desrespeito para com Ela com inundações e desastres naturais. Se a tratar do modo correto e respeitoso,esta Deusa lhe dará soberania sobre sua vida,pois é considerada uma Deusa Soberana que dava aos reis o direito de governar suas terras. Além disso,Cailleach nos passa um tipo especial de poder e muita confiança. Dizia-se que ela aparecia nas estradas como uma Mulher Anciã que pedia para um herói deitar-se com ela,se ele concordasse,transformava-se em uma linda mulher. Ao beijar a bruxa,ela transformava-se em uma bela fada.
Na história chamada as aventuras dos filhos de Eochaid Mugmedn,cinco irmãos saem para caçar na floresta para provarem que são corajosos. Acabam perdidos e acampam entre as árvores. Acendem uma fogueira e cozinham suas caças para matar a fome. Um dos irmãos é então encarregado de procurar água. Ao chegar perto de um poço,encontra uma bruxa monstruosa guardando-o. Somente lhe fornecerá a água se beijá-la. O rapaz foge correndo e vai contar aos irmãos o ocorrido. Um a um,os irmãos vão até o local do poço,mas acabam fugindo,sem beijar a bruxa,com exceção de Niall que lhe dá um abraço e o beijo que a mulher tanto ansiava. Quando se afasta e a olha novamente,tinha se tornado a mulher mais bonita do mundo. Surpreso,pergunta-lhe a causa para tanta transformação e ela responde:
- “Rei de Tara,eu sou a Deusa Soberana”e continua,”tua semente estará sobre todo o clã”.
Aparecendo em seu aspecto repulsivo,a Deusa podia testar quem deveria ser um verdadeiro rei,um que nunca será enganado pelas aparências e sabe que é nos recantos mais escondidos e obscuros que se encontra os maiores tesouros. Tem que ser ainda,um homem caridoso que submete-se a qualquer tipo de situação,independente da compaixão. Sobretudo,é beijando seu lado escuro,que compreenderá os mistérios da vida e da morte,compreendendo que são dois lados de uma mesma moeda,só assim adquirá sabedoria e capacidade para governar seu reino.
Cailleach estava sempre renovando-se ciclicamente de jovem à mulher madura. Relata-se que tenha tido pelo menos cinqüenta filhos enquanto viveu pela terra. Seus filhos deram origem a tribo de Kerry.
Há muitas histórias sobre a Deusa Cailleach. Conta-se que foi ela que criou as ilhas Hébridas Interiores.
Como Deusa da Tempestade é conhecida como Cailleach Beara,sendo o ser mitológico vivo mais antigo associado à Irlanda. Em uma conversação com Fintn,o Sábio,e o falcão Achill,lhe foi perguntado:
-”É a Senhora àquela que comeu as maçãs no início do mundo?”. Tal pergunta era coerente em virtude das maçãs estarem associadas com a imortalidade e se constituírem o alimento dos Deuses. Cailleach,deste modo,estava ligada íntimamente,as colheitas de maçãs,nabos,assim como:aos corvos,à Lua Escura e ao número 7 (sete). O “Livro de Lecan”nos diz que sete formam seus ciclos de vida,morte e renascimento. Sete é um número sagrado,símbolo da perfeição.
No folclore da Irlanda e da Escócia,era chamado de cailleach o último feixe colhido da plantação. Ele obrigatóriamente deveria ser dado como alimento para os animais domésticos,ou ser enterrado na terra,para que lá permanecesse durante todos os meses do inverno. As moças solteiras temiam serem elas à amarrar este último maço,pois se isso acontecesse,acreditavam que jamais casariam. Na Escócia,há também uma tradição folclórica que envolve amarrar o cailleach (feixe) com uma fita e pendurá-lo no alto da porta principal da casa.
É chamada de Carlin nas planícies da Escócia,Bruza de Baare ou Cailleach Bhuer (Mulher Azul) nas montanhas e Cally na Irlanda do Norte. Suas árvores sagradas são o azevinho e o urze.

Dias de honra a Cailleach:27/02,31/10,10/11,21/11.""

Rosane Volpatto)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011


YULE, O Solstício do Inverno



Na tradição de Avalon e da Deusa, Yule, o Solstício do Inverno, representa o estado de morte e de hibernação, quando a vida se recolhe no interior das camadas e camadas de neve e de terra, protegida do gelo e dos ventos frios, esperando adormecida que chegue a Primavera para renascer. As aves de rapina limpam até ao osso os cadáveres dos animais cuja vida chegou ao fim; as sementes apodrecem, transformam-se, preparando-se para ativar os códigos com que a Natureza as dotou. No ventre da terra, a vegetação morta torna-se alimento para a nova vida. Ossos, pedras, conchas, cascas vazias são tudo o que resta neste tempo em que a morte cumpre em pleno a função que tinha começado no Equinócio do Outono.
Até ao renascimento, Yule é quietude, resiliência. É preciso parar, aguentar, esperar. Entretanto, no meio de toda a morte e desolação, uma planta há que permanece igual a si mesma: o verde Azevinho com as suas bagas vermelhas, um símbolo da permanência da Deusa, daquilo que na Vida é eterno, mas também uma importante reserva de alimento que Ela providenciou para os seus pássaros sagrados, mensageiros entre a Terra e os Céus, representações do Espírito e do Elemento Ar. Sabemos que as aves são por todo o lado uma das mais antigas zoofanias da Deusa. 
É óbvio que o nosso clima mediterrânico não nos permite sentir este rigor extremis, a não ser nas regiões mais montanhosas e mais a Norte. Seja como for a estação convida-nos ao recolhimento e à quietude, e também à possibilidade de nos submetermos à ação precisa e rigorosa dos ventos, que nos ajudarão a despir, a libertar-nos de tudo aquilo que já não queremos, do que já não faz sentido conservarmos connosco ou em nós.

A Deusa, no seu aspeto anciã, Danu, Cailleach, Cailícia-Beira, convida-nos a chegarmos ao “osso”, à essência da nossa verdade, libertando-nos do falso e do supérfluo, soltando as máscaras, a falsa alegria, a conversa fiada, tudo aquilo que repetimos como autómatos, vazio de sentido, sem alma nem consciência. Ela convida-nos a estarmos mais presentes e mais despert@s na Vida, honrando o silêncio, permitindo-nos a nós mesm@s igualmente hibernar, interiorizarmo-nos, vivendo a nossa verdade, centrad@s no coração.
Este é por excelência um tempo de interiorização, tempo para nutrirmos o espírito e a alma, para orarmos, meditarmos, para enfatizarmos a nossa vida espiritual, uma vez que o elemento Ar representa o próprio Espírito. Como os nossos Ancestrais nos permitem uma conexão vital com o divino, com a fonte de toda a Vida, contactando com esses mesmos Ancestrais, podemos contactar com a própria essência divina, com a fonte de toda a Vida e, com sorte, receberemos a sua graça. Este é o tempo ideal para nos encontrarmos com  os nossos mais remotos Ancestrais, aqueles que nos criaram, os seres de Fogo, Ar, Vento, Água, Terra primordiais, tentando ouvir as mensagens que podem ter para nós.
Luiza Frazão©, 2010
Fontes:
- "Priestess of Avalon, Priestess of the Goddess, Kathy Jones
- "Spinning the Wheel of Ana", Kathy Jones

A DEUSA DO DISCO DE PRATA

“Tu, que deambulas por muitos lugares sagrados e és reverenciada com diferentes rituais;
Tu, cuja luz suave clareia o caminho dos viajantes e nutre as sementes escondidas sob a terra; Tu, que controlas o caminho do Sol e até mesmo a intensidade dos seus raios,
Eu Te imploro, chamando todos os Teus nomes e todos os Teus aspectos,
Eu Te invoco com todas as cerimónias que Te foram dedicadas,
vem a mim e traz-me repouso e paz”

Apuleio, "O Asno Dourado"

"Para a nossa mentalidade atual, baseada em valores solares, pode parecer estranha a afirmação do escritor romano Apuleio (século I) sobre o controlo exercido pela Lua na trajetória e intensidade dos raios do Sol.
No entanto, se voltarmos para o início da história da humanidade, podemos constatar a maior relevância simbólica e mitológica da Lua, bem como a antiguidade dos cultos lunares em relação aos valores e cultos solares. Na Caldeia, os astrólogos ignoravam o Sol e fundamentaram o seu sistema nos movimentos da Lua. Até hoje, na astrologia védica, o peso da interpretação recai sobre o signo lunar natal, os meses são denominados “mansões lunares” e caracterizados pela posição da Lua cheia na respectiva mansão.

Os cultos lunares tiveram origem no paleolítico e os primeiros calendários conhecidos foram os lunares, baseados no ciclo menstrual da mulher. O mais antigo calendário astrológico conhecido foi criado pelos babilónios e chamava-se “As casas da Lua”, estabelecido a partir do ciclo de lunação, com os seus períodos mensais representados pelos signos zodiacais. A principal deusa lunar da Babilónia era Ishtar, cujo cinturão era enfeitado com representações e símbolos do zodíaco.

Inúmeros artefactos neolíticos talhados em pedra, chifre e osso, encontrados em grutas espalhadas por vários países na Europa e Ásia têm inscrições agrupadas em séries alternadas de 28 a 30 traços, demonstrando o antigo conhecimento astronómico dos ciclos lunares. Atualmente está sendo cada vez mais divulgado e utilizado o calendário lunar do povo Maia, com base no ciclo das treze lunações que formam um ciclo solar.

Desde os mais remotos tempos, a Lua foi reverenciada como a manifestação da Grande Mãe Universal, o aspecto feminino da Divindade, a fonte criadora e sustentadora da vida, cuja luz e bênção eram invocadas nos rituais de
fertilidade, no plantio das sementes e no parto das crianças. As suas fases passaram a simbolizar o próprio ciclo da gestação, nascimento, crescimento mas também o amadurecimento, decadência e morte. As suas faces clara e escura foram consideradas os aspectos doadores da vida e destruidores da natureza – a Mãe sendo tanto a Criadora como a Ceifadora.



A Lua foi venerada sob inúmeros nomes nas várias tradições e culturas antigas. Apesar desta diversidade, existe uma similitude em relação aos seus atributos de acordo com as suas fases. A Lua crescente representava a vitalidade da Deusa jovem, o frescor da Donzela, o potencial do crescimento, o início das realizações. Tornando-se cheia, a Lua personifica o ventre grávido da Mãe, o florescimento e abundância da natureza, a concretização das possibilidades. Ao minguar, a Lua assume o aspecto de Anciã, assinalando o fim da colheita, o declínio das energias, a sábia preparação para conhecer os mistérios da morte e do renascimento.
Dificilmente se encontra nas várias mitologias uma única deusa que sintetize a inteira gama do simbolismo lunar. Nos panteões grego e celta, existem inúmeras deusas lunares com características específicas relacionadas aos atributos das fases e representando os arquétipos da Donzela, da Mãe e da Anciã.


Uma Deusa celta pouco conhecida é Arianrhod, descrita na coletânea de textos galeses “Mabinogion” como “A Senhora da Roda de Prata”. Vivendo na longínqua terra encantada de Caer Sidi, ela personificava uma antiga Deusa Mãe celeste, regente da constelação estelar Corona Borealis, cujo nome em galês era “Caer Arianrhod” , ou seja, “O castelo girante de Arianrhod”.
O mito de Arianrhod é muito complexo, com elementos contraditórios e de difícil compreensão, denotando as deturpações decorrentes da interpretação das antigas lendas da tradição oral dos bardos, pelos monges e historiadores cristãos. Há, no entanto, uma passagem muito interessante que descreve de forma metafórica e pitoresca uma mescla de atributos da Deusa como Donzela e Mãe escura. Filha da deusa da terra Don, Arianrhod foi chamada pelo Deus celeste Math para ser sua acompanhante (na verdade, seu dever era segurar os pés do Deus no seu colo enquanto ele descansava). A condição essencial deste encargo era a virgindade da candidata. Mas, ao ser testada pelo bastão mágico de Math, Arianrhod de repente deu a luz à gémeos – um, bem formado, Dylan, que se foi arrastando para o mar (onde se transformou depois em um deus marinho), e outro, ainda em estado embrionário. Arianrhod desapareceu, mas antes amaldiçoou este filho para que ele não tivesse jamais um nome, não pudesse usar armas nem casar. Na cultura celta, era a mãe que dava o nome e abençoava o seu filho nestes rituais de passagem. No presente mito, a criança foi adotada pelo irmão de Arianrhod, o mago Gwydion, que, no devido tempo, conseguiu ludibriar Arianrhod e, usando de recursos mágicos, a convenceu a dar um nome ao filho e permitir-lhe usar armas. O nome Llew Llaw Gyffes, “o brilhante, luminoso e habilidoso”, era o mesmo nome dum famoso herói celta Lugh, personificação dum antigo deus solar. Comprova-se, assim, por metáforas e intrincados simbolismos celtas, a antiguidade das divindades e cultos lunares, a Lua representando as tradições matrifocais da Deusa que deram origem aos cultos e mitos solares posteriores.



Na Ásia - Ocidental e Menor - durante séculos foram reverenciadas inúmeras Deusas Mãe, algumas delas com características lunares. Na Suméria e na Babilónia, a Deusa Anath, Anunith ou Antu era conhecida como a “Senhora da Lua, do Céu e das Montanhas”, representada por um disco prateado com oito raios. Assim como Arianrhod, ela reunia as qualidades da Donzela – regendo o plantio das sementes e o crescimento dos brotos e da Mãe – quando desce para o mundo subterrâneo para resgatar o seu filho/consorte da escura morada de Mot, o deus da morte, e regenera a terra seca com a chuva fertilizadora.
Posteriormente, os atributos de Anath foram absorvidos no mito e no culto de outras deusas, como Ashtar, Astarte e Asherah."


Mirella Faur




DANU DO NORTE E DO INVERNO


DANU, A GRANDE MÃE IRLANDESA


“No início havia o Vazio, a vastidão do Nada, a supremacia da criatividade não-diferenciada
Do vazio nasceu o Caos,
Da união entre o vazio e o caos originou-se Ana, a Grande Sonhadora, Criadora e Tecelã dos mundos, em cujo ventre fértil resplandeciam estrelas e planetas.
Da união entre Sonho e o nosso Sol foram criados a Mãe Terra, o
Pai Céu e o oceano, os ancestrais primevos.
Do encontro entre o céu e a Terra surgiram os Seres Brilhantes, os
Dakinis e os Dakas que trouxeram a luz ao mundo.
E do ventre de Ana, tocado pela luz das Plêiades, nasceram os Tuatha de
Danann, o povo da deusa Danu.”
Kathy Jones, “The Well of Ana”

Os primeiros relatos escritos sobre as lendas e as crenças dos povos celtas foram feitos pelos romanos, que invadiram a Grã Bretanha em 55 a.C. Na medida das suas conquistas, eles incorporavam ao seu próprio sistema religioso mitos e conceitos dos povos indígenas, registando-os, porém, de forma fragmentada e adaptada, em função da localização geográfica e da similitude entre uma divindade local e uma correspondente romana.

Estes registos referem-se aos antigos mitos irlandeses, galeses e escoceses, acrescentando, também, lendas das tribos celtas que tinham chegado posteriormente à Grã Bretanha (cerca de 500 a.C.), provavelmente vindas da França central. Ocultas nas histórias encontram-se reminiscências das tradições pré-celtas, dos povos neolíticos, construtores dos círculos de menires e das câmaras subterrâneas, encontradas em inúmeros lugares nas ilhas Britânicas e na Bretanha (região do Oeste da França).


Esta herança ancestral, preservada durante milénios pela tradição oral e pelas práticas religiosas pagãs, parcialmente registada por historiadores romanos, foi aproveitada, reinterpretada, deturpada e truncada nos relatos dos monges cristãos ao longo dos séculos. Mantendo somente o que convinha à moral e aos dogmas cristãos, os monges reduziram o vasto panteão e a rica simbologia celta a relatos épicos de guerras, invasões, intrigas, traições e atos imorais, perpetrados pelas várias raças e tribos, diferenciados apenas pela localização geográfica. Mesmo preservando resquícios das verdades originais, as histórias cristãs minimizaram ou ignoraram a beleza e a sabedoria do legado celta, reduzindo ou distorcendo o seu valor mítico e espiritual. Na visão patriarcal dos monges, as Deusas foram vistas como Rainhas e princesas, os deuses como Reis e Heróis e o significado transcendental foi diluído, modificado ou perdido.


No século XI foi publicado “O Livro das Invenções”, que descreve uma sucessão de 5 povos que teriam vivido na Irlanda antes da chegada dos celtas, os ancestrais dos habitantes atuais.
Nas lendas, estas raças diferentes são descritas duma forma ambígua, tendo tanto características divinas quanto humanas e sendo apresentadas como deusas, deuses, gigantes, devas e seres elementais (seres análogos aos de tantos outros mitos de várias culturas e países).


Sem precisar de entrar em detalhes da complexa nomenclatura e das vastas descrições das batalhas, o importante é saber que cada uma dessas raças foi vencida e seguida pela seguinte, alternando-se assim os seus mitos, as suas divindades e a sua organização social e religiosa.
A quarta raça - Tuatha de Danann ou povo da deusa Danu -, apareceu de forma misteriosa: não da terra, de uma direção definida, como outros invasores, mas do céu, simultaneamente das 4 direções. Aterraram no dia do Sabbat de Beltane e depois fundaram 4 cidades que se tornaram os centros espirituais da Irlanda.


Tanto a sua natureza, quanto a sua origem permanecem envoltas em mistério, mas sabe-se que os seus atributos eram de bondade e luz. Por terem vencido a “escura” e agressiva raça anterior, foram por isso chamados “ seres brilhantes”. Trouxeram ensinamentos e objetos de magia, arte, sabedoria e cura e deixaram como marcos os círculos de menires e os monumentos megalíticos. Após um longo e pacífico reinado, eles também foram vencidos pela última raça, os precursores dos celtas; depois da sua derrota retiraram-se para o interior das colinas sagradas, tornando-se o assim chamado “Povo das Fadas”. É importantíssimo ressaltar que apesar de se traduzir fairy por “fada”, este termo não descreve uma “diáfana figura feminina sobrevoando as flores”. O sentido arcaico de Fairy People refere-se a seres sobrenaturais, com aparência etérica, sim, mas pertencendo a ambos os sexos, jovens que gostavam de música, danças, cores, flores, e abominavam o ferro (comprovação da sua origem anterior à Idade do Ferro).

O maior legado dos Tuatha de Danann foi o culto da deusa Dana (também conhecida como Danu , Anu ou Ana), considerada a Deusa Mãe, progenitora das outras divindades. Representando a força ancestral da Terra, a fertilidade, a vida e a morte, Dana foi posteriormente considerada como a representação da tríplice manifestação divina, da qual sobreviveu até hoje somente o culto à Brighid, cristianizada e fervorosamente venerada como a milagreira Santa Brígida.


Apesar de o seu culto ter sido proibido pelo cristianismo e de o seu nome aos poucos ter sido esquecido, Danu está presente em toda a parte na Irlanda, seja nos verdes campos, no perfil arredondado das montanhas, no sussurro dos riachos. O Seu lugar sagrado no Condado de Kerry, chamado Paps of Anu, reproduz, na forma de duas colinas, os Seus fartos seios, cujos mamilos são formados por cairns, os antigos amontoados de pedras que foram formados pelas oferendas de pedras levadas pelos peregrinos ao longo dos tempos, em sinal de reverência e gratidão.


Atualmente, com o ressurgimento do Sagrado Feminino, Danu, assim como as Deusas de outras tradições, estão a ser lembradas e reverenciadas como Senhora da Terra, da Água, da Abundância, da plenitude da Natureza e da Soberania.

Mirella Faur
http://sitioremanso.multiply.com/journal/item/29

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011


LIVROS

  • A dança cósmica das feiticeiras - Starhawk - Record
  • A Deusa Interior - Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger - Cultrix
  • A Filha do Herói - Maureen Murdock - Summus
  • A fusão do feminino - Chris Griscom - Siciliano
  • A Grande Mãe - Erich Neumann - Cultrix
  • A Mulher Ferida - Linda S. Leonard - Summus
  • A mulher no limiar de dois mundos - Lynn V. Andrews - Ágora
  • A Passagem do Meio - da miséria ao significado da meia-idade - James Hollis - Paulus
  • A princesa que acreditava em conto de fadas - Marcia Grad - Nova Era
  • A prostituta sagrada - Nancy Corbett - Vozes
  • A Tenda Vermelha - Aniat Diamant - Sextante
  • A Virgem Grávida - Marion Woodman - Paulus
  • Amor e Psiquê - Erich Neumann - Cultrix
  • As Deusas e a Mulher - Jean Shinoda Bolen - Paulus
  • Caminho para a iniciação feminina - Sylvia B. Perera - Paulus
  • Consciência Solar, Consciência Lunar - Murray Stein - Paulus
  • Dance e Recrie o Mundo - Lucy Pena - Summus Editorial
  • Destino, Amor e Êxtase - John A. Sanford - Paulus
  • Destruição e Resgate do feminino no homem e na mulher - Wilmer Botura Júnior (org) - República Literária
  • Dionísio no Exílio - Rafael López-Pedraza - Paulus
  • Eros e Pathos - Aldo Carotenuto - Paulus
  • Eunucos Pelo Reino de Deus - Uta Ranke - Heinemann - Rosa dos Tempos
  • Feminino e Masculino - Rose Marie Muraro e Leonardo Boff - Sextante
  • Mulheres que Correm com os Lobos - Clarissa Pinkola Estés - Rocco
  • Na casa da lua - J. Elias e K. Ketcham - Objetiva
  • O Anel do Poder - Jean Shinoda Bolen - Cultrix
  • O Caminho de Avalon - Jean Shinoda Bolen - Rosa dos Tempos
  • O Convite - Oriah Mountain Dreamer - Sextante
  • O Cálice e a Espada - Riane Eisler - Imago
  • O Evangelho de Maria - Jean-Yves Leloup - Vozes
  • O Martelo das Feiticeiras - Rosa dos Tempos
  • O orgulho de ser mulher - Shere Hite - Sextante
  • O Prazer Sagrado - Riane Eisler - Rocco
  • O Reino das Mulheres - O Último Matriarcado - Ricardo Coler - Planeta
  • O romance de Maria Madalena - Jean-Yves Leloup - Verus
  • Os Mistérios da Mulher - M. Esther Harding - Paulus
  • Retorno da Deusa - Edward C. Whitmant - Summus
  • Seu sangue é ouro - Lara Owen - Rosa dos Tempos

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Seu caminho

Seja um Portal para a energia das Deusas. O autoconhecimento propicia uma consciência efetiva do eu criativo para o autogerenciamento do seu tempo e da realização de seus projetos. Esteja onde estiver, não esqueça o seu Caminho, não se desvie de seus Sonhos. Seu caminho é sua bússola. Sua bússola é intuitiva e ligada aos sinais. Pensar e agir positivo são atitudes para todos os dias. Desenvolver uma programação baseada na positividade e com foco na melhoria contínua é possível quando você firma uma Aliançacom você mesmo



Oh Mahakali

Doce, doce, doce, linda Mãe eu te reverencio,
Eu te reverencio!

Maheshwari, por favor, me proteja, me envolva,
Com seu amor Divino,

Oh Mahakali, destruidora de inimigos,
Remova meus defeitos com a luz da sabedoria,
Que as sombras que envolvem minha cabeça fiquem penduradas sangrando no seu colar
Quebre meus limites como o vento quente,
Piedade eu não peço a Ti!

Ouça, Mahalakshmi, um raio constante de seu Shakti,
Formidável e rápido, 
Distribuirá muita luminosidade,
Causará a individualização necessária,
Antes que o meu ego seja oferecido em sacrifício,

Entre em mim Mahasaraswati,
Você, a mais jovem de todas, Anandamayi,
Como um redemoinho reorganize meu eu interior.

Mahashakti, eu me coloco em suas mãos!"

Mirra Alfassa
 (A Mãe, Purna Yoga de Sri Aurobindo)

OS MISTÉRIOS DAS TRÍADES


A transformação de tribos de coletores-caçadores em comunidades agrícolas, foi um processo instituído pelas mulheres. Elas cuidavam do fogo e preparavam as refeições; eram o centro da própria vida. Eram, também, fundamentais à construção e manutenção de abrigos; eram tecelãs, atando e unindo, criando tramas para os telhados e outras partes essenciais da casa. Também criavam vasos para armazenar alimentos e transportar água.

Durante períodos nos quais os alimentos eram menos abundantes, as mulheres controlavam a utilização das provisões ao ocultar o alimento em silos de armazenamento subterrâneo. Os homens, geralmente envolvidos em caçadas, defesa contra inimigos da tribo ou executando trabalhos braçais, não tinham ciência das atividades das mulheres. Foi dessa prática de ocultar os alimentos que as mulheres aprenderam sobre os ciclos da vida vegetal. Tubérculos e diversos grãos enterrados no solo começaram a brotar ou se enraizar, possibilitando às mulheres a primeira observação do cultivo. Habilidade em transformar barro em cerâmica e sementes em plantas foi a base para os Mistérios da Transformação. Deles evoluiu o conhecimento do preparo de poções herbais ou bebidas intoxicantes.

Tais descobertas e associações estimularam a mente das mulheres e elas desenvolveram uma consciência diferente da dos homens. As mulheres passaram a pensar em níveis mais expansivos, rompendo com as barreiras do pensamento primitivo. Os homens estavam mais concentrados nas ligações imediatas; o rastro recente de um animal significando que estava por perto, a distância a que uma lança podia ser atirada, e assim por diante. Isso estimulou diferentes modos de consciência para os homens, e eles evoluíram por um caminho mental diferente do das mulheres. Cada uma dessas mentalidades era necessária para o bem-estar do clã; sem esse equilíbrio, muito provavelmente não estaríamos aqui hoje.


O fato de que as mulheres eram, geralmente, responsáveis pelas crianças do clã, significava que elas permaneciam próximas à aldeia. A aldeia era relativamente mais segura do que a vastidão onde o perigo dos animais selvagens e dos intrusos nômades constituía uma ameaça real. Fora desse cenário, as mulheres naturalmente iniciaram a formação de sistemas sociais. Nos Mistérios da Formação, a estrutura social era matrilinear. Somente após o homem tomar ciência de seu papel na procriação, foi que esse sistema começou a se alterar. Entretanto, em algumas partes do mundo atual – como na áfrica e na América do Sul, as sociedades matrilenares ainda existem.

As mulheres estabeleceram certos fatores sociais para controlar os naturalmente fortes desejos sexuais dos homens. No livro Blood Relations – Menstruation and the Origins of Culture (Yale Univ. Press, 1991), de Chris Knight, encontramos muitos exemplos interessantes de tais estruturas sociais. 
Knight teoriza que as mulheres entravam em greves sexuais para forçar os homens a sair em caçada. Retornar com carne fresca, significava o fim da greve - uma troca de sexo por alimento. Para que os homens não se preocupassem com a possibilidade de os jovens desfrutarem de privilégios sexuais durante sua ausência, as mulheres criaram tabus quanto ao coito entre irmãos e irmãs, mães e filhos. As mulheres também desenvolveram um relacionamento entre irmãos e irmãs, para que os interesses sexuais de outros machos que permanecessem na aldeia fosse inibido pelos irmãos das mulheres. Do mesmo modo como controlavam o fogo que cozinhava seus alimentos e transformava o barro, as mulheres também controlavam o fogo da natureza sexual do homem.

Assim, encontramos no antigo papel das mulheres, os mistérios da preservação, formação e transformação. Desse essencial papel, surgiram as tradições internas associadas a suas necessidades privadas e pessoais. O sistema de tabu foi originalmente criado pelas mulheres para se abster das exigências/necessidades da comunidade e, então, concentrar-se nos mistérios que as afligiam: menstruação, gravidez e parto.

A Terra e o Feminino


Muitos séculos vêm testemunhando a usurpação, pelos homens, do título de propriedade da Natureza, revogando assim toda a sacralidade da Terra, da Água e dos valores femininos. Entronizamos um Deus distante do convívio de todos os seres – a própria Criação – e o exilamos em um céu remoto, acessível apenas a supostos escolhidos; tudo o mais foi relegado, rotulado de heresia e apreciado apenas como ambição de difícil acesso para mulheres com baixa capacidade para desenvolver seu lado racional.
Esquecemo-nos das origens e ligações dos seres autodenominados pensantes com a Terra. Mediante esta união – hoje desprezada – construíam-se “primitivamente” as relações sociais, os sistemas políticos, agrários, econômicos, a arte e todas as produções humanas. A Terra, por ser respeitada em todos os seus ciclos como um ser vivo, interativo, latente, pululante, que possuía necessidades, que deveríamos respeitar como um corpo humano, os servia com abundância e prosperidade.
Omitimos de nós mesmos o passado, negando assim o conhecimento de que a Terra vivia em fartura, e as esplêndidas civilizações antigas se relacionavam com seus ciclos com períodos favoráveis de plantio, como os Sumérios, por exemplo. Baseavam-se nesta premissa, pois valorizavam a arte, e um conceito antiqüíssimo que, há cerca de trinta anos, passou a atender pelo nome de Sustentabilidade. Os povos que hoje chamamos de primitivos sabiam que suas necessidades agrárias não podiam comprometer as possibilidades e reclamos das gerações futuras. Porquê esquecemos isso?
Diversas divindades desta época simbolizam a mulher e o Feminino. Exumando a cultura dos povos antigos, reponta sua ligação com a Terra: para eles, era uma relação de mãe e filhos. Para as altas culturas agrárias do Neolítico, a Terra era a figura sagrada dos cultos e ritos de ligação com o sagrado – era a Deusa Máxima. Era ela quem gerava e mantinha tudo o que era vivo. O corpo da Terra era o próprio corpo da Deusa. Nas culturas agrárias desse período, era preciso conhecer o céu e a Terra; povos antigos da Mesopotâmia valiam-se dos ciclos dos planetas, plantavam e colhiam segundo suas revelações e ausências. A Terra era única: consagrada e casada com a água, as terras, o Universo, os seres humanos, em prefeita união com tudo.
O Conhecimento do tempo cíclico regia o entendimento e a percepção de mundo. Examinandoos astros e sua interação com a Terra, os humanos entendiam que tudo nascia, crescia e reproduzia-se para morrer, renovando assim o mundo; tal qual os ciclos femininos, que prefiguram a mesma dinâmica na renovação celular mensal necessária para que o novo possa florescer.
Com isso, constatamos que muitas rupturas ocorreram a partir do abandono da sacralidade da Natureza, da Terra e do Feminino, hábeis a auxiliar como inspiração para nossas atitudes. Quando tivemos oportunidades de seguir as leis da Natureza como um guia, longe de ser uma questão de conformismo, nos assemelhávamos à Terra, e isso nos trazia serenidade, harmonia e paz.
Atualmente, quando observamos a vida humana, constatamos o desligamento dos homens com o Planeta, esquecemo-nos do valor da união com esta Terra provedora e generosa que nos nutria, desrespeitando assim nossa própria essência de criaturas sagradas. Quem sabe, como boa matriarca que alimenta seus filhos com fartura em todos os aspectos, ela esteja apenas esperando que voltemos pra nós mesmos, relembremos de onde viemos e quem somos, e com tal consciência, apenas esteja aguardando o momento exato que nos brindará com novos tempos de fartura e abundância, ao sentir que finalmente decidimos voltar para nós mesmos, para a Terra. Que decidimos voltar para casa.
Carolina Rubin é Relações Públicas (CONRERP 2250) e Pesquisadora de Desenvolvimento Humano e Sustentabilidade.

Referências Bibliográficas:
CHARTIES.R. (1995). Diferenças entre os sexos e dominação simbólica (nota crítica). DUMONT. Lígia Maria Moreira & ESPÍRITO SANTO. Patrícia. Leitura feminina: motivação, contexto e conhecimento. Disponível em Ciências & Cognição Submetido em 14/02 /2007 | Aceito em 15/03/2007 | ISSN 1806-5821 – Publicado on line em 31 de março de 2007. FUNK. Suzana. Desenvolvimento Sustentável e Disign: Uma Relação que visa a Sustentabilidade.